sábado, 15 de junho de 2013

SEQUÊNCIA DIDÁTICA  DE LEITURA E ESCRITA
AULA PRESENCIAL 2 – DE - AVARÉ

E.E. Dr. Paulo Araújo Novaes

PROFESSORAS:
ELISABETH APARECIDA BATISTA DOS SANTOS
MARIA CRISTINA ARRUDA RODRIGUES
MÔNICA ALMEIDA NEVES
LIONETE FARIA RIBEIRO
TATIANA ZANLUCHI

JUSTIFICATIVAS:

Esta seqüência didática preparada para uma oficina pedagógica durante o curso “Melhor Gestão, Melhor Ensino” está pautada nas teorias e indicações dos autores genebrinos Dolz e Schneuwly (1996). Segundo os autores, o papel da escola, em relação às atividades de práticas leitoras e escritoras, deve estar pautado no estudo e trabalho com os agrupamentos textuais e de gêneros  presentes no meio social dos alunos e da sociedade em que eles vivem. Na visão dos autores, o critério de escolhas dos gêneros textuais a serem trabalhados na escola, não deve ser feito aleatoriamente ou por critérios de forma isolada, seja formal ou funcional, mas por um conjunto de critérios estabelecidos e que irão, no todo, definir a que tipo de agrupamento este ou aquele gênero/texto pertencerá. Assim, escolhemos trabalhar com diferentes gêneros textuais: letra de música, crônica, conto e filme, cujos temas envolvessem o assunto do primeiro beijo, temática essa que poderá envolver de forma abrangente e significativa os alunos, pois este é um assunto que lhes agrada muito.
Para Dolz e Schneuwly (1996), o trabalho com os gêneros textuais pressupõe a interação de três fatores “as especificidades das práticas de linguagem que são objeto de
aprendizagem; as capacidades de linguagem dos aprendizes e as estratégias de ensino propostas pela seqüência didática”.
Ao elaborar esta seqüência didática, as professoras envolvidas procuraram ter como norte a interação desse três fatores, sabendo que: tudo o que se aprende na escola, em relação à língua, deve estar relacionado diretamente às práticas da linguagem em seu meio social; a escola deve levar em conta as diferentes capacidades de uso da linguagem de seus alunos e, a partir disso, mostrar a eles outras formas de uso da língua; o ensino escolarizado de qualquer conteúdo curricular deve ser feito por meio de planejamentos das estratégias e metodologias a serem usadas para se atingir determinados objetivos de aprendizagem.
Ao trabalhar com agrupamentos textuais do gênero narrativo, esta seqüência didática apresentará aos alunos diversas tipologias, dentre ela o conto, a crônica, a letra de música e o filme, para oferecer aos alunos a oportunidade de, por meio de leituras diversificadas de um mesmo tema, ler e conhecer como se estrutura uma narrativa, quais as diferenças e semelhanças estruturais entre os textos apresentados. Nunca se esquecendo, porém de trabalhar os pré-requisitos e conhecimentos prévios que os alunos deverão ter para trabalhar com esses gêneros textuais. Agindo dessa forma, com planejamento das ações e dos objetivos a serem alcançados, eperamos com esta seqüência didática estar cumprindo nosso papel social de construtores de leitores e escritores capazes de exercer sua cidadania.


HABILIDADES  E CAPACIDADES DE  LEITURA E ESCRITA:

As habilidades e capacidades de leitura pretendidas com essa sequência didática estão baseadas no texto Letramento e capacidades de leitura para a cidadania, de Roxane Rojo.
Segundo Roxo, situações de aprendizagem de leitura e escrita, que trabalham com diferentes tipos de letramento e práticas de leitura diferenciadas, exigem também uma combinação de capacidades e habilidades a serem aprendidas ou alcançadas. Dentre as elencadas por Rojo, selecionamos algumas:

 - Levantamento de conhecimentos prévios sobre o assunto e os gêneros apresentados;
 - Expectativas em função da formatação do gênero e de seus aspectos e características estruturais. Evidenciando-se as semelhanças e diferenças entre eles;
 - Explicitação das expectativas de leitura a partir da análise dos índices anteriores;
 - Confirmação ou retificação das antecipações ou expectativas de sentido criadas antes ou durante a leitura;
 - Localização ou construção do tema ou da ideia principal;
 - Utilização das pistas linguísticas para compreender a hierarquização das proposições, sintetizando os conteúdos dos textos;
- Ativação de conhecimento de mundo; antecipação ou predição; checagem de hipóteses;
 - Localização de informações; comparação de informações; generalizações;
 - Produção de inferências locais, produção de inferências globais.
 - Percepção das relações de intertextualidade, percepção das relações de interdiscursividade;
 - Percepção de outras linguagens; 
 - Elaboração de apreciações estéticas  e/ou afetivas, valores  éticos.

ESTRATÉGIAS:

1- Letra de música e clipe:
- Apresentação da letra de música de Roberto Carlos – cópia do texto para todos os alunos;
- Apresentação do clipe da música no site do youtube:   

- Socialização e Sistematização sobre o tema apresentado na letra da música:
·   Análise das imagens apresentadas no clipe da música.
·   O que conhecem sobre o autor e cantor? Fazer uma pesquisa em sala de aula, usando celulares com internet.
·   A forma pela qual a juventude atual trata o tema do primeiro beijo é igual a dos jovens da época dessa música? O que é diferente?
·   Há outras letras de música mais atuais que tratem desse tema? Quais? Trazer para a próxima aula.
·   A que gênero esse texto pertence? Vamos sistematizar suas características textuais?
 
2- Leitura de Textos Narrativos:
·                     Distribuir cópias dos dois textos a todos os alunos.
·                     MEU PRIMEIRO BEIJO. (Antônio Barreto)
                    O PRIMEIRO BEIJO. (Clarice  Lispector)

·         Atividade de compreensão e escrita:
Dividir os alunos em vários grupos, determinar a cada grupo que faça a releitura dos textos e estudo dos elementos narrativos e das características estruturais.
Sortear, entre os grupos, papéis contendo um dos elementos narrativos ( narrador e foco narrativo, personagens, espaço, tempo e enredo) para análise e exposição para a classe.
·         Realizar essa atividade primeiro com o texto MEU PRIMEIRO BEIJO. (Antônio Barreto), depois com o texto MEU PRIMEIRO BEIJO. (Clarice  Lispector)

3- Relações intertextuais e interdiscursivas:
·                     Promover discussões sobre as semelhanças e diferenças temáticas e estruturais de cada um dos gêneros textuais estudados. Sistematizar.
·                     Pesquisa sobre  os autores dos textos bem como dos aspectos sociais que envolveram contexto de produção desse textos.

4- Atividades de escrita e socializações:
·                     Pedir que os grupos façam as sistematizações escritas de suas conclusões e apresentem aos colegas de classe, podendo usar o datashow e apresentação de slides em Power Point
·                     Após a socialização das compreensões, os alunos serão convidados a criarem, em duplas, uma narrativa envolvendo o tema trabalhado: O primeiro beijo

5- Apresentação do vídeo: O primeiro beijo - Clarice Lispector

https://www.youtube.com/watch?v=0M1DxyPCTz0

6- Textos trabalhados

1.                  Aquele Beijo Que Te Dei 
(Roberto Carlos) - Composição: Edson Ribeiro

Aquele beijo que te dei
Nunca, nunca mais esquecerei
A noite linda de luar
Lua testemunha tão vulgar
Lembro de você
E fico triste
Até me dá vontade de chorar
De lembrar que o amor
Não mais existe
Não mais existe
Mas eu sempre
Hei de te amar
Ou, ou aquele beijo
Nunca mais esquecerei
O beijo que te dei



2.                  Meu Primeiro Beijo
         Antonio Barreto

É difícil acreditar, mas meu primeiro beijo foi num ônibus, na volta da escola. E sabem com quem? Com o Cultura Inútil! Pode? Até que foi legal. Nem eu nem ele sabíamos exatamente o que era "o beijo". Só de filme. Estávamos virgens nesse assunto, e morrendo de medo. Mas aprendemos. E foi assim...
Não sei se numa aula de Biologia ou de Química, o Culta tinha me mandado um dos seus milhares de bilhetinhos:
"Você é a glicose do meu metabolismo.
Te amo muito!
Paracelso"
E assinou com uma letrinha miúda: Paracelso. Paracelso era outro apelido dele. Assinou com letrinha tão minúscula que quase tive dó, tive pena, instinto maternal, coisas de mulher... E também não sei por que: resolvi dar uma chance pra ele, mesmo sem saber que tipo de lance ia rolar.
No dia seguinte, depois do inglês, pediu pra me acompanhar até em casa. No ônibus, veio com o seguinte papo:
- Um beijo pode deixar a gente exausto, sabia? - Fiz cara de desentendida.
Mas ele continuou:
- Dependendo do beijo, a gente põe em ação 29 músculos, consome cerca de 12 calorias e acelera o coração de 70 para 150 batidas por minuto. - Aí ele tomou coragem e pegou na minha mão. Mas continuou salivando seus perdigotos:
- A gente também gasta, na saliva, nada menos que 9 mg de água; 0,7 mg de albumina; 0,18 g de substâncias orgânica; 0,711 mg de matérias graxas; 0,45 mg de sais e pelo menos 250 bactérias...
Aí o bactéria falante aproximou o rosto do meu e, tremendo, tirou seus óculos, tirou os  meus, e ficamos nos olhando, de pertinho. O bastante para que eu descobrisse que, sem os óculos, seus olhos eram bonitos e expressivos, azuis e brilhantes. E achei gostoso aquele calorzinho que envolvia o corpo da gente. Ele beijou a pontinha do meu nariz, fechei os olhos e senti sua respiração ofegante. Seus lábios tocaram os meus. Primeiro de leve, depois com mais força, e então nos abraçamos de bocas coladas, por alguns segundos. E de repente o ônibus já havia chegado no ponto final e já tínhamos transposto, juntos, o abismo do primeiro beijo.
Desci, cheguei em casa, nos beijamos de novo no portão do prédio, e aí ficamos  apaixonados por várias semanas. Até que o mundo rolou, as luas vieram e voltaram, o tempo se esqueceu do tempo, as contas de telefone aumentaram, depois diminuíram... e foi ficando nisso. Normal. Que nem meu primeiro beijo. Mas foi inesquecível!

BARRETO, Antonio. Meu primeiro beijo. Balada do primeiro amor. São Paulo: FTD, 1977. p. 134-6. Extraído de http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=22430


3- O primeiro beijo -  Clarice Lispector

 Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:
-Sim, já beijei antes uma mulher.
-Quem era ela? perguntou com dor.
Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.
Não sabia como e por que, mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede, mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos. Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele... Ele se tornara homem.

2 comentários:

  1. Otima sequencia didatica.....podemos sempre compartilhar e isso sempre nos ajuda...

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